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Comportamento Preconceituoso
O processo
antropossociopsicológico do indivíduo é realizado com imensa
dificuldade, em razão do impositivo de vencer os hábitos enfermos que o
retêm nas etapas vencidas, e que lhe constituem vigorosas travas à
aceitação e adaptação aos novos comportamentos. Como decorrência, o
desenvolvimento intelectivo, tecnológico, científico dá-se com mais
facilidade e repercussão do que aquele de natureza moral, por proceder
da libertação dos atavismos viciosos que produzem as sensações de prazer
e de gozo, em detrimento da harmonia que deve viger no ser que se
ilumina.
O brilho intelectual produz a
jactância que proporciona a soberba e a presunção, desenvolvendo no ser
imaturo uma falsa superioridade, que observa as demais pessoas como
sendo pigmeus culturais que não merecem consideração ou oportunidade, em
razão do seu nível de conhecimentos não acadêmicos, como se a sociedade
se erguesse sobre os alicerces da ilusão cultural e do predomínio do
poder temporal que todos perseguem como maneira de ocultar os próprios
conflitos, descarregando-os no desdém dirigido àqueles que são
considerados fracos e submissos.
Quando se trata de valores
morais e espirituais, normalmente a visão dos refugiados nos gabinetes
da pseudossabedoria presunçosa, sempre distante das massas que despreza,
são tidos como equipamentos próprios para vestir a ignorância e mascarar
os limites intelectuais em que se demoram.
Em todas as épocas o
intelectualismo zombou da pequenez daqueles que não tiveram oportunidade
de proporcionar brilho à mente, embora trabalhando em favor do progresso
sociológico e moral da humanidade, sendo desconsiderados nas suas
realizações enobrecedoras.
Nada obstante, seres
brilhantes e ricos de sabedoria como Racine ou Voltaire, Rousseau ou
Clemenceau, Montaigne ou Auguste Comte, Descartes ou Rossini, Flaubert
ou Chateaubriand, Debussy ou Renoir, ou Sartre, apenas para recordar
alguns gênios, devotaram-se à compreensão das necessidades humanas,
observando e apoiando as ideias revolucionárias pelo seu conteúdo
libertador, embora não sendo deles, desse modo construindo a sociedade
progressista e dignificada pelas virtudes e pela eloquência dos seus
valores morais e espirituais...
Têm sido esses eminentes
pensadores e outros tantos cientistas e investigadores dos fenômenos da
vida, artistas e sábios, santos e apóstolos, como Pascal, Pasteur ou
Broca, Charcot ou Pierre Curie, Rouger de Lisle ou Massenet, Jeanne d’Arc
ou Vincent de Paul, Degas ou Gide, que compreenderam os fenômenos
humanos e entregaram-se com dedicação total ao ministério de construir a
sociedade da esperança, da beleza, do conhecimento e do amor, a fim de
que todos os homens e mulheres do mundo tivessem os mesmos direitos ao
sonho e à realidade, à saúde e à alegria, à vivência do bem na Terra
livre do terror, do sofrimento e da miséria...
Dentre os grandes
missionários franceses representantes da inteligência superior da
evolução, Allan Kardec destacou-se como cientista e apóstolo, educador e
missionário de Jesus-Cristo, apresentando o Espiritismo, no clímax do
enflorescimento cultural na França e no mundo, como sendo a filosofia
ética e moral mais bem urdida durante o século XIX para servir de
paradigma cultural e social para o pensamento que mergulhava no
materialismo dialético e mecanicista, histórico e agressivo, fomentador
de guerras e de desgraças em nome da soberania ideológica dos seus
líderes apaixonados e de algumas nações enlouquecidas...
Concomitantemente, ocorrendo
a separação natural que eclodiu nas academias colocando as religiões
totalitárias nos seus devidos lugares, sem que se imiscuíssem nos
negócios do Estado e no comportamento das investigações a respeito do
ser humano, da vida e do Cosmo, surgiu, com Allan Kardec, a doutrina
libertadora de consciências, capaz de proporcionar a fé raciocinada
apoiada na experiência dos fatos, avançando com as conquistas da ciência
nos seus diversos campos de investigação, propondo novos e felizes
conceitos perfeitamente de acordo com os avanços culturais e filosóficos
de então.
Desdenhado pela presunção de
alguns magister dixit, o Espiritismo serviu de campo de experimentação
para Charles Richet, Gabriel Delanne, Osty, Geley, Mme. Bisson, na
França, e no mundo para Crookes, Lombroso, Aksakof e toda uma elite de
homens e mulheres comprometidos com a verdade e não com os interesses
mesquinhos da prepotência humana um tanto irracional.
Jean Jaurés, por exemplo,
tornou-se mártir por defender a França do compromisso de entrar na
guerra de 1914, sendo assassinado covardemente pelos defensores da
hecatombe, e, à semelhança de outros mártires dos direitos humanos e da
liberdade, ofereceu-se para a preservação da vida, enquanto a sua foi
sacrificada...
Resultado de profundas
observações no campo da mediunidade, na França das liberdades
democráticas e das conquistas da beleza e da sabedoria, essa nobre
doutrina lentamente foi transformada em campo para inqualificáveis
comportamentos, quais os de exploração da ignorância por falsos médiuns
e fantoches da indignidade travestidos de espíritas... Os farsantes,
aproveitando-se da respeitabilidade do Espiritismo, sendo alguns
portadores de mediunidade atormentada ou dirigida por Espíritos
vulgares, zombeteiros e mistificadores, passaram explorando a
ingenuidade da clientela aturdida, contribuindo para a desmoralização,
no país, da obra gloriosa e libertadora da Codificação...
Por outro lado, pessoas
aflitas, que se lhe vincularam aos postulados renovadores, não tiveram a
coragem de despir-se das indumentárias nefastas do orgulho, da
presunção, e apropriaram-se do nome respeitável do Espiritismo para o
adaptar a conceitos e doutrinas outras, que lhes pareciam simpáticas,
numa mixórdia compatível com as suas necessidades de sucesso, ora
discordando da parte religiosa, momentos outros da científica e até
mesmo da filosófica, para criarem grupos de investigadores, alguns
inescrupulosos, gerando contínuas e lamentáveis discórdias na grei.
Por outro lado, a partir da
guerra franco-prussiana de 1870 e as que a sucederam, o país ficou
assinalado pelo sofrimento, e os maus exemplos de alguns religiosos, que
fugiram dos deveres de amparar as ovelhas dos seus rebanhos, geraram a
animosidade a todo e qualquer movimento portador de propostas
ético-morais e de religiosidade doutrinária, ampliando a área do
materialismo e do existencialismo, de modo que o imediato passou a
dominar as mentes e a emocionar os sentimentos.
- Viver por viver é gozar –
passou a ser normativa existencial de milhões de pessoas, não apenas na
França mas em todo o mundo.
À medida que as comunicações
e o intercâmbio de ideias tornaram-se mais fáceis e presentes em todos
os momentos, a ânsia do ser humano pelas informações e a busca
desordenada pelos acontecimentos trágicos, em mecanismos de fuga da
realidade e de transferência dos conflitos, estimularam o surgimento e a
manutenção de comportamentos alienados uns, frios outros, inquietos
ainda outros mais...
Nesse comenos diminuiu a
divulgação dos postulados espíritas, na veneranda e moderna Gália,
apesar da presença digna e ativa de trabalhadores dedicados à seara da
luz, ficando, porém, o campo antigo trabalhado pelos pioneiros à mercê
das pragas da indiferença e da desconfiança dos presunçosos intelectuais
que passaram a considerar o Espiritismo pelas informações errôneas, ao
invés de mergulharem nos conteúdos extraordinários da filosofia
profunda, sustentada pelos fatos extraordinários defluentes das seguras
comprovações da imortalidade, da justiça divina, da reencarnação...
O Espiritismo é uma doutrina
que não pode ser penetrada por meio de leituras superficiais, aliás,
como sucede com toda ciência experimental, exigindo reflexões cuidadosas
em torno dos seus conteúdos iluminativos, da sua moral assentada nos
ensinamentos de Jesus Cristo, conforme Ele os enunciou, e não conforme
foram adaptados às paixões de grupos e de teólogos amargurados e
déspotas, formando greis fanáticas e perversas.
Libertando o Evangelho da
letra que mata e facultando o conhecimento do espírito que vivifica, a
sua é a missão de esclarecer e de proporcionar condutas saudáveis,
mediante a mais elevada ética de que se tem notícia, aplicando a justiça
social, favorecendo todos os indivíduos com as mesmas oportunidades de
dignificação mediante o trabalho, a educação, o repouso, a construção da
solidariedade e o respeito aos direitos de pensamento e ação
igualitariamente para todos.
Não havendo sido fruto da
elaboração de um homem, antes, porém, resultado de uma proposta firmada
pelos expoentes da filosofia universal que atravessaram os penetrais da
morte e retornaram vivos confirmando a sua e a nossa imortalidade,
fixa-se no mecanismo da mediunidade, que lhe constitui o instrumento de
comprovações, favorecendo aqueles que buscam entendê-lo com textos de
insuperável beleza sobre os mais diversos conhecimentos históricos e
lógicos dos tempos passados e dos atuais e com as belas perspectivas em
torno do futuro.
Desdenhado, porém, pelos
multiplicadores de opinião e pelos intelectuais de gabinete, que jamais
se permitiram sair das suas celas douradas para a convivência com a
massa de sofredores de que o mundo está referto, ou mesmo com os
portadores das chagas morais virulentas das enfermidades mal
disfarçadas, que são os tormentos interiores, não encontra ressonância,
exceto esporadicamente quando algo abala a opinião pública pela sua
grandeza ou miséria, nas páginas dos veículos da mídia escrita ou
comentários edificantes na comunicação radiofônica, televisiva, na
virtual, no abençoado e formoso campo cultural da veneranda França...
Os fatos, são imperiosos,
escreveu Cromwell Varley, ao tornar-se espírita, e não existe nada mais
brutal do que um fato, proclamou Broussai, defendendo as pesquisas
científicas do seu tempo.
A formação cultural francesa
é cartesiana, enfrentando sempre a razão e contestando tudo quanto
suporte a demonstração científica e o debate cultural.
O Espiritismo foi trabalhado
pelos seres imortais dentro desses parâmetros vigorosos e, por essa
razão, suplantou a intolerância com que o atacaram acadêmicos e
religiosos partidaristas, populares ignorantes, enfrentando a revolução
das doutrinas psicológicas que passaram a confirmar-lhe indiretamente os
conteúdos psicoterapêuticos, os avanços da física e da astronomia, da
medicina e da antropologia, demonstrando a robustez dos seus
ensinamentos sem alterar um paradigma sequer, mantendo-se tão atual
neste momento, quanto o esteve ao ser publicado, há mais de um século e
meio...
A indiferença francesa ao
Espiritismo, ainda confundido por alguns jactanciosos, como sendo uma
seita, apesar do seu caráter científico, portador de moral elevada e
profundamente cristã, sua ética socraticoplatônica e todo o acervo de
sabedoria, não deixa de ser chocante.
A atitude científica é sempre
a de pesquisar, tendo o direito de discrepar, combater ou confirmar as
metas a que se propõe, nunca porém ignorar o que se encontra à
disposição e ao alcance de quem se permita a experimentação.
Esse comportamento, porém, é
transitório e passará, queiram ou não os ditadores da cultura e os
sábios de ocasião, porque ninguém pode deter a força do progresso nem a
marcha do conhecimento que atingirá o Infinito, decifrando todas as
incógnitas que ainda aturdem a mente e afligem os sentimentos.
O Espiritismo se propõe a
construir a nova sociedade humana em a qual o sofrimento deixará de
afligir, e as manifestações da barbárie, tais como as injustiças
sociais, a violência, as arbitrariedades, os crimes hediondos e o
desrespeito pela vida, cederão lugar ao equilíbrio e à beleza, ao
conhecimento enobrecido e ao amor, à saúde e à arte, à dignificação da
criatura e à consideração afetuosa pela mãe Terra, que nos tem servido
de lar desde os primórdios da nossa evolução.
Auguramos, sinceramente
emocionado e confiante, que esses formosos e bem-aventurados tempos logo
chegarão, porquanto já se encontram em acercamento, proporcionando, por
antecipação, alegria e bem-estar, ventura e plenitude.
Victor Hugo
Página psicografada pelo
médium Divaldo Pereira Franco no dia 11 de maio de 2010, na residência
de João e Milena Rabelo Júnior, em Paris, França.
Extraído da Revista O Consolador, nº 172
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